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terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

O sol da vida

 # O Alvorecer de Vidro



O sol da manhã, no sítio, estava estranho... 


Não era o habitual amarelo vibrante que costumava despertar os galos e aquecer o orvalho nas folhas de café. Em vez disso, a luz era *líquida*, de um tom violeta pálido que parecia pesar sobre o mundo. Elias saiu à varanda, sentindo o arrepio de um silêncio absoluto; nem o carpir das cigarras, nem o balançar das copas das árvores ousavam interromper aquela calmaria sobrenatural.


Ao estender a mão para o pátio, Elias notou que a luz não iluminava sua pele — ela a atravessava. Por um instante, ele viu, sob a derme, não veias ou ossos, mas pequenos fios de prata que pulsavam no ritmo da terra. 


— O tempo cansou de correr — sussurrou uma voz que parecia vir de dentro do poço artesiano.


No meio do pomar, onde as laranjeiras deveriam estar carregadas de frutos cítricos, agora pendiam esferas de um cristal puríssimo, que refletiam cenas de uma infância que Elias julgava ter esquecido. Ele caminhou entre as árvores, e cada passo não fazia som de gravetos quebrados, mas sim o tilintar de sinos distantes. 


Lá adiante, sentada no velho banco de madeira onde o avô costumava pitar seu fumo, estava uma figura feita de pura claridade. Ela não tinha rosto, mas Elias sentiu o calor de um reconhecimento antigo. A figura apontou para o horizonte, onde o sol estranho começava a se abrir como uma pétala de lótus, revelando um céu onde duas luas de marfim já o esperavam.


O sítio não era mais um pedaço de terra em Minas Gerais; tornara-se o cais de um oceano invisível. Elias respirou fundo, e o ar tinha gosto de mel e saudade. Ele percebeu, com um aperto doce no peito, que aquele sol não estava nascendo para anunciar um novo dia, mas sim para iluminar o caminho de volta para casa — uma casa que não era feita de tijolos, mas de luz e memória.


*O mundo de antes havia ficado para trás, do outro lado daquela luz violeta.*

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