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sábado, 10 de outubro de 2026

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 A inesquecível redada



Eu cresci acompanhando meu avô e meu tio nas redadas de tainha e parati. Minha infância e minha adolescência foram marcadas pela vida de pescador, pelo cheiro do mar, pelo movimento das redes e pela expectativa de cada pescaria. Naquela época, nossa vida girava em torno do mar.


Meu avô, junto com meu tio, havia iniciado uma peixaria que ficava bastante movimentada durante a temporada de turistas. Os peixes eram frescos, bem cuidados e chegavam diretamente do mar, trazidos pelas redes. Era um trabalho que exigia dedicação, força física, experiência e, acima de tudo, muita disposição.


Meu avô tinha redes de tainha e parati, canoas, rolos e uma equipe de camaradas para ajudar a puxar as redes. Mas, acima de tudo, tinha uma enorme força de vontade. Acordar cedo para verificar se havia algum cardume no lanço fazia parte da rotina. Era preciso estar sempre atento aos sinais do mar e torcer para que os peixes estivessem por perto.


Nem todas as pescarias, porém, eram motivo de comemoração. Havia dias em que lançávamos a rede ao mar, fazíamos todo aquele trabalho e, quando começávamos a puxá-la para a praia, aparecia uma quantidade tão pequena de peixes que chegava a desanimar. Depois de tanto esforço, o resultado era quase nada.


Para se ter uma ideia do tamanho das redes, a de tainha tinha aproximadamente 900 braças. Considerando que cada braça correspondia a cerca de 1,60 metro, estamos falando de uma rede com aproximadamente 1.440 metros de comprimento! Ou seja, mais de um quilômetro de panagem.


A malha da rede de tainha era de número 10, enquanto a de parati era de número 7 ou 6, dependendo do fio de náilon utilizado. De qualquer maneira, eram redes enormes, que exigiam muito trabalho para serem manuseadas.


Foi assim que passei boa parte da minha juventude: cercando tainhas, paratis e outros peixes. Ora estava na praia, ajudando a puxar a tralha da rede; ora estava no lagamar, trabalhando com o chumbo para que a rede fosse conduzida corretamente.


Com o tempo, fui ganhando mais responsabilidades. Primeiro, acompanhava o trabalho dos mais experientes. Depois, fui promovido a uma função dentro da canoa: soltar o chumbo da rede enquanto os dois remadores conduziam a embarcação ao redor do cardume. Havia ainda o rapaz responsável por lançar a cortiça ao mar, mantendo a parte superior da rede na superfície.


Éramos quatro dentro daquela canoa feita de um único tronco de árvore.


Meu avô havia construído centenas de canoas ao longo da vida. Ele retirava a madeira do meio do mato e, com a ajuda de uma enxó, trabalhava o tronco até transformá-lo numa embarcação artesanal, feita com uma habilidade e uma perfeição que impressionavam. Era um trabalho de quem conhecia a madeira, entendia do mar e tinha aprendido o ofício com a experiência.


Nossa vida era profundamente praiana. Tudo girava em torno da pesca. Os peixes capturados pela manhã eram levados para a peixaria e vendidos aos turistas que visitavam a região.


Eu comi muito peixe frito e cozido durante minha adolescência. Minha avó preparava uma tainha cozida que, até hoje, me deixa com saudades. Basta lembrar daquele sabor para voltar no tempo e sentir um pouco da vida simples que levávamos.


Mas houve um dia que ficou marcado de maneira especial na minha memória.


Naquela manhã, havíamos voltado de uma pescaria frustrante. A rede não trouxera a quantidade de peixes que esperávamos, e precisávamos seguir com as outras tarefas. Afinal, mesmo quando não havia peixe, o trabalho não parava. Era preciso assoalhar a rede, verificar a panagem, organizar os equipamentos e lavar a canoa. Tudo era tratado com muito zelo, porque aqueles materiais eram fundamentais para o nosso sustento.


A tarde seguia normalmente quando, por volta das três e meia, chegou uma notícia capaz de mudar o ânimo de todos.


Alguém havia avistado um cardume gigantesco, daqueles de dar medo só de olhar, na rebentação, bem próximo à ilha do Pontal, na Lagoinha.


Pronto! Foi o suficiente para agitar todo mundo.


A buzina da caminhonete Rural começou a soar freneticamente, chamando os camaradas para ajudar a puxar a rede. Eram cerca de vinte homens de cada lado, necessários para trazer à praia aquela enorme e pesada estrutura.


Alguns foram a pé, enquanto outros subiram na carroceria da Rural. A canoa seguia no engate, pronta para ser colocada na água.


Lá fomos nós, cheios de esperança, na expectativa de realizar uma grande pescaria.


Ao chegarmos diante daquele cardume, porém, surgiu uma dúvida: seria tainha ou outro tipo de peixe?


De longe, parecia tainha. Mas havia alguma coisa naquele movimento que deixava o pessoal desconfiado. Às vezes parecia ser tainha; em outros momentos, não.


A dúvida chegou até mesmo aos olheiros oficiais das pescarias, homens experientes, acostumados a observar o mar e reconhecer os cardumes.


Era uma decisão importante. Cercar ou não cercar?


Depois de avaliar a situação, meu avô e meu tio resolveram arriscar.


Colocamos a canoa na água e começamos o cerco daquele cardume monstruoso. A rede foi lançada ao mar, a embarcação fez o percurso necessário e, pouco depois, começamos a puxá-la em direção à praia.


A expectativa era enorme. Todos queriam ver o resultado daquela operação.


Não demorou muito para aparecerem os primeiros peixes.


E então veio a revelação!


Bagre gonguito!


Sim, era um cardume gigantesco de bagres gonguitos.


Para quem não conhece, esse peixe possui três ferrões: um na parte superior do corpo e outros dois nas laterais. E o problema não é apenas a ferroada. Quando esses peixes ficam emaranhados na rede, tornam-se extremamente difíceis de retirar. Seus ferrões se prendem na malha, e qualquer movimento descuidado pode provocar um acidente.


Imaginem a situação: uma rede com mais de um quilômetro de comprimento, carregada de bagres gonguitos, cada um com seus três ferrões, e um batalhão de homens tendo de retirar peixe por peixe!


A grande pescaria havia se transformado numa verdadeira batalha.


Como já estava próximo do pôr do sol, não houve tempo de terminar o serviço antes de escurecer. E o trabalho continuou noite adentro.


Passamos horas retirando bagres da rede. Era peixe que não acabava mais! A cada trecho que avançávamos, havia mais animais presos à panagem, exigindo cuidado e paciência.


A noite passou, e nós continuávamos ali, naquela tarefa interminável.


Só terminamos por volta das sete horas da manhã, quando o sol já iluminava o novo dia.


Sim, amanhecemos tirando bagre gonguito da rede!


Foi uma noite inteira de trabalho, ferrão por ferrão, peixe por peixe.


E foi justamente aí que me lembrei de uma conversa que havia tido com meu tio.


Eu havia comentado com ele que queria vivenciar uma verdadeira história de pescaria. Reclamava que não tinha nenhuma história especial para contar, daquelas que a gente guarda na memória e relata aos outros muitos anos depois.


Meu tio se lembrou do que eu havia dito e me fez recordar aquele desejo.


Agora eu tinha uma história!


E não era uma história que eu havia escutado de alguém, aumentada a cada vez que era contada. Eu tinha vivido tudo aquilo na própria pele. Havia participado de cada etapa, sentido o cansaço, acompanhado a surpresa e passado a noite inteira trabalhando para retirar os peixes da rede.


Aquela, sim, era uma história de pescaria de verdade!


Meu irmão, que havia vindo de São Paulo, também estava presente naquela redada inesquecível. Como não tinha muita experiência com pescarias daquele tipo, ficou impressionado com a quantidade de peixes que havíamos capturado.


E não era para menos!


A quantidade de bagres era tão grande que deu para encher aproximadamente trinta tabuleiros. Para completar, a carroceria da caminhonete Rural ficou abarrotada de peixes, praticamente até a borda.


Diante daquela cena, meu irmão olhou para o nosso avô e soltou, todo satisfeito:


— Acertamo, hein, vovô!


Na cabeça dele, havíamos realizado uma pescaria maravilhosa. E, olhando apenas para a quantidade de peixes, não era difícil entender sua empolgação.


Mas ele ainda não sabia de toda a trabalheira que nos esperava.


Mal imaginava que passaríamos a noite inteira retirando ferrão de bagre gonguito daquela enorme rede!


A pescaria tinha sido abundante, sem dúvida. Mas, naquele caso, a fartura veio acompanhada de um trabalho que ninguém esqueceria tão cedo.


Hoje, quando me lembro daquele dia, consigo enxergar muito mais do que uma rede cheia de peixes. Vejo meu avô, meu tio, os camaradas, a canoa de um só tronco, a caminhonete Rural, o movimento da praia e todos aqueles homens unidos por um mesmo objetivo.


Vejo também uma época em que o mar determinava o ritmo da vida, em que o trabalho começava cedo e só terminava quando a tarefa estava concluída. Uma época de muito esforço, mas também de histórias que ficaram guardadas para sempre.


E pensar que tudo começou com uma pescaria frustrante pela manhã e terminou com uma noite inteira de trabalho!


A vida de pescador era assim: nunca se sabia exatamente o que o mar nos reservaria. Às vezes, a rede voltava quase vazia. Em outras ocasiões, trazia uma surpresa tão grande que ninguém conseguia esquecer.


Esta história é real. Eu estava lá e participei daquela redada de bagre gonguito que atravessou a noite e entrou pela manhã.


Agora quero fazer uma pergunta a você que está lendo esta prosa: se você também participou dessa pescaria, deixe um comentário dizendo qual era a cor da canoa utilizada naquele dia.


Assim saberei que você esteve lá comigo, naquela inesquecível redada de bagre gonguito!


E, se você não estava lá, fica o convite para continuar acompanhando essas lembranças de uma vida ligada ao mar, às redes e às tradições caiçaras.


Até a próxima prosa!




sábado, 3 de outubro de 2026

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