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quinta-feira, 18 de dezembro de 2025

O mesmo sucede a todos - Eclesiastes 9:2


A passagem de Eclesiastes 9:2 situa-se como um dos pináculos do pensamento sapiencial bíblico, marcando uma ruptura dramática com a teologia retributiva tradicional do antigo Cercano Oriente.


Enquanto a sabedoria convencional, exemplificada em grande parte do livro de Provérbios e na teologia Deuteronomista, postulava uma correlação direta e causal entre a piedade e a prosperidade material ou longevidade, a voz do Eclesiastes (Qoheleth) introduz um realismo cru e desconcertante.


O versículo declara que 'tudo sucede a todos da mesma maneira', nivelando o justo e o ímpio, o bom, o puro e o impuro, aquele que sacrifica e o que não sacrifica.


Esta afirmação não é meramente uma observação sociológica, mas um golpe ontológico na presunção humana de controlar o destino através da moralidade.


Filosoficamente, o texto antecipa correntes do existencialismo moderno e do absurdismo de autores como Camus.


Ao observar que o mesmo evento final — a morte — aguarda a todos sem discriminação, o autor expõe o 'hebel' (vaidade, fumo, absurdo) da existência 'sob o sol'.


Não há garantia de segurança cósmica baseada no comportamento ético, o que desafia a noção de justiça imanente.


Isso gera um impacto psicológico profundo e ambivalente: por um lado, pode induzir ao niilismo ou ao desespero diante da aparente indiferença do universo; por outro, liberta o indivíduo da ansiedade de 'performance' religiosa e da culpa neurótica diante do infortúnio, permitindo uma apreciação da vida como dádiva imerecida e não como salário conquistado.


Na cultura contemporânea, Eclesiastes 9  2 ressoa poderosamente em tempos de crise coletiva ou tragédia randômica, onde a aleatoriedade do sofrimento desafia explicações causais simplistas.


O texto serve como um 'memento mori' inegável, lembrando que as distinções sociais, morais e religiosas são, em última análise, penúltimas diante da grande equalizadora que é a finitude humana.


A sua evolução histórica, de um texto considerado escandaloso e heterodoxo — que quase foi excluído do cânone hebraico por contradizer a Torá — para uma peça central de reflexão sobre a condição humana, demonstra a perenidade da sua angústia e a universalidade da sua verdade. 



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