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quinta-feira, 25 de dezembro de 2025

Capítulo 1 - A chamada


João era um pescador nato e bem conhecido da região da Maranduba, mas depois que ele encontrou aquele artefato estranho na praia sua vida mudou e influenciou todos daquela comunidade caiçara de pescadores. O objeto não brilhava como ouro, nem tinha a frieza do ferro. Era uma esfera irregular, de uma tonalidade cinza-azulada que parecia mimetizar a cor do mar em dias de ressaca. Desde que o resgatara das areias após uma tempestade violenta, João não era mais o mesmo. Seus olhos, antes atentos ao movimento das gaivotas e ao brilho dos cardumes de tainha, agora pareciam perdidos em um horizonte que ninguém mais conseguia enxergar. Ele parou de lançar as redes; sua canoa, a "Estrela de Vidro", permanecia estática na areia, secando ao sol até que a madeira começasse a estalar de abandono.


Na vila, o silêncio de João tornou-se um presságio. Os outros pescadores, homens de pele curtida pelo sal e mãos calejadas, cruzavam-se com ele no porto e sentiam um calafrio inexplicável. Diziam que, quando João passava, o cheiro de maresia tornava-se mais denso, quase sufocante. Não era apenas uma mudança de humor; era uma transformação física. Seus movimentos tornaram-se fluidos, lentos, como se ele estivesse constantemente submerso em uma correnteza invisível. A comunidade caiçara, sempre tão unida pelos rituais de pesca e pelas festas de São Pedro, começou a se dividir entre o temor e a curiosidade mórbida.


Tudo culminou na noite em que o som começou. Não era um ruído comum, mas uma vibração que reverberava nos ossos de quem chegava perto da casa do João. Era "a chamada". Um zumbido rítmico, semelhante ao canto das baleias, mas carregado de uma urgência metálica que não pertencia ao mundo natural. Naquela noite, sob uma lua minguante que mal iluminava as ondas da Maranduba, João sentou-se à beira-mar com o artefato entre as mãos. Ele não precisava mais de redes ou anzóis. O que quer que estivesse dentro daquela esfera estava finalmente acordando, e exigia uma resposta que apenas o pescador sabia como dar.


A dona Luzia, sua esposa, já não sabia o que fazer para ver uma melhora nele. Ela até pensou em jogar fora aquele objeto que tanto lhe trouxe sofrimento. Porém, quando ela ia se aproximando do objeto ele emitia um som cada vez mais alto, o que com o João não acontecia. Luzia recuou, o peito arfando enquanto o som agudo do artefato ainda feria seus ouvidos como agulhas de gelo. João, no entanto, parecia envolto em uma redoma de silêncio absoluto. Ele não a viu; talvez não visse mais nada deste mundo. Para ele, o objeto não gritava; ele sussurrava promessas em uma língua feita de abismos e corais negros. A pele do pescador, outrora curtida e bronzeada, adquiria agora uma palidez fosforescente, quase translúcida, onde as veias pulsavam num ritmo que acompanhava, compasso por compasso, a vibração da esfera.


Lá fora, a Maranduba reagia de forma antinatural. O mar, geralmente inquieto naquela época do ano, tornou-se de um espelhamento assustador. As ondas não quebravam; elas deslizavam para a areia como se pedissem licença, sem espuma, sem rugido. De repente, peixes de profundidades abissais, criaturas que nenhum caiçara jamais vira — formas alongadas, sem olhos e com barbatanas que pareciam véus de seda — começaram a surgir na arrebentação. Estavam vivos, mas permaneciam imóveis, com as cabeças voltadas para a casa do João, como uma plateia silenciosa aguardando o início de um espetáculo ancestral.


— João... — o nome escapou dos lábios da dona Luzia como um lamento, mas o marido apenas inclinou a cabeça para o lado, captando uma frequência que ia além da compreensão humana.


O artefato começou então a pulsar com uma luz interna, mas não era uma luminosidade que clareava o ambiente; era uma espécie de "anti-luz" que parecia sugar as sombras ao redor, tornando os cantos da casa ainda mais densos. A superfície da esfera começou a se desdobrar, camadas de um material que oscilava entre o orgânico e o mineral se afastando como as pétalas de uma flor de pesadelo. No centro, não havia uma joia ou um motor, mas um vácuo que ondulava como água viva. João estendeu a mão, e Luzia viu, com horror, que os dedos dele começavam a se alongar e a perder a rigidez dos ossos, fundindo-se à fumaça fria que emanava do coração do objeto. A "chamada" não era mais um som; era um convite para um lugar onde o fôlego não era necessário e o tempo não possuía margens. 



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